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DESABAFO DE UM SACERDOTE: ENTRE O AXÉ, A ENTREGA E A INGRATIDÃO

Por trás das rezas, dos ebós, dos toques e da roupa branca… existe um ser humano que sente, que sofre, que se decepciona. Esse é o grito silencioso de um sacerdote de matriz africana.


Não é fácil sustentar uma casa de axé. Não é fácil carregar o sagrado nos ombros, cuidar de dezenas de filhos espirituais, administrar crises, manter a estrutura física da casa, zelar pela espiritualidade dos outros e ainda sorrir. O sacerdócio é uma entrega diária. E, muitas vezes, solitária.


Quem vê a firmeza de um sacerdote no barracão, não imagina a solidão que ele vive fora dele. A verdade é que a maioria de nós está mais acostumado a ouvir do que a ser ouvido. Nos tornamos, além de líderes espirituais, psicólogos, conselheiros, suporte emocional e muitas vezes somos a única presença real na vida de quem nos procura.


Só que, infelizmente, estamos vivendo tempos em que até o sagrado se tornou descartável. Filhos de santo chegam com pressa, querem resultado imediato, querem “resolver a vida”, mas não querem compromisso com o axé. Querem cura sem processo, bênção sem esforço, proteção sem responsabilidade. E quando percebem que fé também exige entrega, vão embora. Às vezes sem se despedir. Sem agradecer. Sem sequer conversar.


Muitos não entendem por que um sacerdote se blinda, por que cria barreiras. Mas essa armadura é forjada na decepção. É feita das vezes que seguramos o mundo de alguém e depois fomos ignorados. Das vezes que demos tudo que tínhamos e, no fim, viramos apenas “mais uma casa”.


Já ouvi muito: “o pai de santo mudou”. E muda mesmo. Porque quem vive o sacerdócio, vive também o abandono. Vive as promessas vazias. Vive a dor de ver a casa cheia só nos momentos bons. Vive o contraste da casa vazia quando o filho acha outra que “oferece mais”. Mas ninguém sabe o quanto foi investido, o quanto foi doado pra manter aquela estrutura onde tudo começou.


A verdade é que o sacerdócio não é só espiritual. É também humano. Somos fortes, sim. Mas também cansamos. Também choramos. Também sentimos medo. E em muitos momentos, a gente precisa segurar a própria dor enquanto cuida da dor dos outros.


E isso tudo machuca.


Machuca ver relações sagradas sendo tratadas como contrato de prestação de serviço. Machuca ver a espiritualidade ser comparada por aparência e não por essência. Machuca perceber que há quem troque o axé por status, o compromisso por conveniência.


Sim, todos erramos: filhos e sacerdotes. Mas como qualquer relação, o que mantém de pé é o diálogo. O silêncio sem explicação fere mais do que qualquer erro. E o que muitos não entendem é que quando o filho some, ele leva uma parte da história da casa. Leva um pedaço do axé que ajudou a construir.


Vivemos da miséria até a abundância, porque só assim aprendemos a lidar com o problema dos outros. E mesmo assim seguimos. Por fé, por missão, por ancestralidade. Porque, mesmo feridos, continuamos rezando, cuidando e abrindo caminhos.


Mas fica aqui o desabafo:


O sacerdote é humano. É resistência. Mas também é carne, também cansa.

Nos respeitem. Nos ouçam. Nos considerem.


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Ilè Asè Orià Odò Funfun

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